A arte da persuasão cristã em Lewis e em Chesterton.

Agnon Fabiano

A arte da persuasão cristã em Lewis e em Chesterton.

É um enorme prazer estar com vocês neste congresso de literatura católica para falar sobre aqueles que são meus dois autores prediletos: C. S. Lewis e Chesterton. Queria deixar claro que foi um pouco difícil escolher um assunto que relacionasse os dois escritores, não porque eles são muito diferentes entre si, mas porque são muito parecidos e, como diria Chesterton, a multiplicidade de opções nos deixa em desamparo. Eu fiquei um pouco desamparado na escolha do assunto, justamente pela quantidade de opções a partir das quais eu poderia começar. Mas se eu tivesse que dar um nome a essa nossa conversa, eu diria que seria “A arte da persuasão cristã em C. S. Lewis e Chesterton.”

Como Chesterton e C. S. Lewis construíram a arte da persuasão cristã é de sua própria maneira. Pois nós podemos chamar de um modo geral a arte da persuasão cristã todas as formas cristãs que, principalmente no passado, se estruturaram para a defesa da fé. Quando eu digo “no passado”, isso vem desde os tempos Bíblicos através dos profetas. Eles tinham uma maneira de comunicar a verdade que era uma maneira muito peculiar do cristianismo e do judaísmo, neste caso. Esta arte se preocupa muito com o coração e não só com a mente. Por isso, ela é um pouco diferente do que a gente tem visto em termos de debate.

O debate tem sido muito mais um deleite em ver o outro derrotado em argumentos do que realmente tentar ganhar o coração da pessoa em relação a verdade que você está levando. Chesterton e C.S Lewis tinham muito essa preocupação e, por isso, eles praticaram muito mais uma arte da persuasão cristã do que simplesmente debates ou uma apologética (no sentido mais pejorativo do termo), em que há apenas a frieza de argumentos e o deleite em ver o outro derrotado. Só para ter ideia, quando Chesterton estava doente, no leito, quase em morte, Bernard Shaw, que foi seu grande oponente em debates e era um milionário, chegou para a esposa de Chesterton e disse: “o que o dinheiro puder pagar, faça!”. Ou seja, o maior oponente de Chesterton na Inglaterra, Bernard Shaw, do qual Chesterton discordava de todas as ideias e que debateram várias e várias vezes, no momento em que Chesterton estava doente, quase vindo a morte, ele vai à casa de Chesterton e oferece auxílio financeiro para o que fosse preciso para ele se restabelecer.

Então, isso sim é um testemunho de que Chesterton praticava a arte da persuasão cristã. Eu creio que não preciso definir, e é até um pouco difícil de definir, mas a arte da persuasão cristã é essa arte de argumentar e debater em que levamos em consideração, não somente a verdade que vamos levar, mas como iremos levar, de forma a ganharmos corações e não somente vencermos mentes.

Para falarmos a respeito dessa arte em Chesterton e C. S. Lewis, seria interessante traçarmos algo que podemos chamar de anatomia da descrença, ou seja, como o homem passa de um homem que crê em Deus a um homem que não crê em Deus. Como é essa descrença. Como ocorre essa descrença. A gente pode traçar um esboço dela. Alguns filósofos cristãos realizaram essa empreitada, mesmo Chesterton fez isso, mas Kierkegaard e Peter Berger, por exemplo, também se aventuraram em algo dessa forma. É interessante ver o esboço dessa anatomia da descrença para que possamos saber onde realmente nós precisamos atacar, onde nós realmente precisamos tocar para que nossa persuasão seja efetiva. Então, nós podemos traçar o que nós chamaremos de incongruências.

A vida é repleta de incongruências e vocês vão entender um pouco melhor o sentido desse termo quando eu falar um pouco mais a frente de seu significado. Enfim, a vida é repleta de incongruências e, quando nós estamos diante dessas incongruências, nós temos respostas a elas, aos seus estímulos. Então, veja, o humor, é uma resposta a incongruências. Qual o significado do humor? O humor é justamente quando você vê a dignidade de algo e a indignidade da suas situações. Por exemplo, quando você vê um homem cair, você vê a dignidade do homem em contraposição a indignidade da situação em que ele está e, então, você ri. Você não ri quando cai uma árvore. Você não ri quando cai um poste. Mas você ri quando um homem cai, porque existe a incongruência entre a dignidade do homem e da sua situação.

Outro exemplo que podemos dar, que aconteceu comigo, você sai com os amigos e chega a hora do almoço. Vocês ainda não comeram e certa pessoa do grupo está com muita fome e fica reclamando até que as pessoas começam a brincar com aquela situação. Aí, vão para um restaurante, a comida demora e todos continuam brincando com ele por causa da situação em que ele se encontra. Logo, a gente ri da incongruência entre a dignidade da pessoa e ela está ali passando por aquela situação. Mas você não ri quando ouve falar da fome na África. A situação tem em comum fome e pessoa. Mas você ri de uma e de outra você não ri. Assim como você não ri se um homem cai e quebra a perna. Tanto que, às vezes, uma pessoa cai e você primeiramente pode ter um sentimento de susto e vai ver se aconteceu algo e quando vê que não, começa a rir. Então, existe uma diferença entre o grave real e a incongruência da situação.

Podemos dizer que quando o nível de incongruência é leve, ela causa humor. Quando o nível de incongruência é elevado, ela não causa humor, ela causa outra coisa.  Mas nos detenhamos neste primeiro. Quando há uma incongruência leve, nós rimos. Nós estamos no humor. Quando um homem cai e se estatela no chão, se não ocorreu nada de grave com ele, nós rimos. Geralmente, é isso que acontece. A incongruência leva ao humor.

Já se ele quebrar uma perna, a incongruência é elevada. Não só ele caiu, como teve consequências, o que faz com que essa incongruência entre a dignidade do homem e a indignidade da situação seja ainda maior. Nesse caso, nós não rimos da situação. Nossa posição nessa situação, para cristãos, é a fé. Você já socorre aquela pessoa acreditando que ela vai ser tratada, já a entregando em suas preces para que Deus tome conta da situação até você chegar com ela no hospital ou seja lá o que for. Mas você já deposita fé em Deus nessa situação, vamos dizer assim, catastrófica, nessa situação de dor. Quando a incongruência é leve, nós temos o humor. Quando a incongruência é elevada, nós, cristãos, temos a fé.

 

 

 

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