A Divina Comédia de Dante Alighieri

Victor Sales

A Divina Comédia de Dante Alighieri

Em determinado momento da história católica, a Igreja conseguiu criar uma cultura consciente dos princípios teológicos, filosóficos, estéticos e morais da sua identidade. Quando uma pessoa amadurece, passa por uma crise de adolescência e, de repente, diz, como disse o Quixote em determinado momento: “Eu já sei quem eu sou!”. O período histórico que se costuma chamar de cristandade, a partir do século XI, a baixa Idade Média, o período das catedrais, das universidades, foi o período de Dante Alighieri, o maior poeta de todos os tempos, não só da literatura católica. O poeta mais perfeito do ponto de vista formal. O poeta que concebeu, e essa é a melhor forma de começarmos a pensar, uma catedral poética, uma suma poética.

Para a gente começar a se aproximar desta obra prima, absolutamente monumental da literatura católica, que é a Divina Comédia, eu lhes proponho duas analogias. Primeiro, a analogia da catedral gótica que, conforme Erwin Panofsky, reproduz materialmente uma estética escolástica. Sendo a Escolástica uma reflexão para tentar alcançar a Deus, que é a totalidade unificada e orgânica do mundo, a partir de suas partes constitutivas. Logo, da parte, eu chego ao todo. Da relação das partes do todo entre si, eu consigo conjugar, dialeticamente, uma síntese unitária que as transcende e as reúne. Então, o princípio estético que motiva a arquitetura gótica é exatamente a teologia escolástica. A teologia escolástica é a dimensão intelectual cuja expressão estética é a catedral gótica e cuja expressão poética é a Divina Comédia de Dante.

Portanto, aqui temos uma civilização católica completa. Uma civilização católica que sabe quem é, do ponto de vista arquitetônico, pautado no mistério da encarnação franqueado pela Virgem Maria. Por isso, todas as catedrais são todas Notre Dame, principalmente, as francesas. Pois, sem a Virgem Maria não haveria encarnação do Verbo e o Verbo encarnado significa a materialidade da pedra e nada mais bruto que uma pedra que pode nos espiritualizar e nos elevar pelo mistério da eucaristia e da encarnação. Por isso, a catedral como o local do culto eucarístico, da missa, e a catedral gótica é um conjunto de partes interdependentes que nos levam exatamente à Virgem com o menino Jesus no colo, a Rosácea, cuja luz, a interação da natureza com a cultura e técnica humana resplandece no altar. Isto é, toda a simbologia da catedral gótica, inesgotável, que exigiria um curso e uma explicação, inclusive de uma chave simbólica da arte arquitetônica, encontra correspondência na arte poética.

Do ponto de vista intelectual, da segunda analogia, quando a gente entra em uma catedral gótica, a gente se sente pequeno. A catedral gótica tem um detalhe: não se consegue vê-la toda. A catedral gótica não fora feita para as pessoas, fora feita para Deus. Ela é inesgotável! É inexaurível! Tem muitos ângulos e você pode vê-la por fora, por cima, pelo centro, de lado, enfim, ela tem milhares de detalhes.

Mas Deus está nos detalhes. Principalmente quando esses detalhes forem partes de conjuntos menores, que se articulam com conjuntos maiores, em círculos concêntricos que encontram a unidade no arquiteto, no motor imóvel, na causa não causada, e aqui eu passo da analogia das catedrais góticas para a analogia da escolástica enquanto pensamento filosófico e teológico na figura do grande São Tomás de Aquino, que é o teólogo por trás da Divina Comédia. É a base da Divina Comédia. Assim como muito provavelmente São Francisco é a parte moral que inspirava Dante que estudou em convento franciscano, Convento Santa Cruz, e que morreu com hábito franciscano, foi enterrado com hábito franciscano. São Tomás de Aquino, então, tenta partir do mais simples, do mais essencial, do próprio ser cuja essência é existir que é Deus, e desse núcleo simples, uno, bom, belo, verdadeiro, perfeito, espraiar por toda a criação intelectual e ontologicamente articulada com argumentos lógicos, com proposições, com silogismos que tem suas causas, as suas conclusões e que vai da natureza una de Deus, da natureza trinitária de Deus, da criação de Deus, do mundo, da providência de Deus sobre o mundo, da parcela da criação que é o homem, da antropologia humana composta por corpo e alma, da moralidade humana, dos vícios, das virtudes, da lei natural eterna, Divina, positiva e, de repente, a Suma Teológica é uma obra para qual você se rende.

A experiência da catedral, a experiência da Suma Teológica e a experiência da Divina Comédia, é uma experiência de rendição. Não faz diferença se você estudou 20 minutos ou 20 anos a Divina Comédia, ela é maior do que você. Não importa se você já leu a Suma Teológica, ela é maior do que você. Você não coloca a Suma Teológica na sua cabeça. Você pode ter uma cabeça genial. Você pode ser um grande teólogo. Você pode até ter capacidade intelectual de acompanhar Santo Tomás, o que já lhe coloca em um patamar de inteligência superior. Pois estamos falando, ao meu ver, do homem mais inteligente de todos os tempos que não formula nada que não seja silogístico, que não seja consciente do pressuposto e da conclusão, da clareza do termo, da veracidade da proposição e da articulação lógica do silogismo. Então, ele tem um pensamento lógico perfeito. Ou tanto mais perfeito possível seja a um homem.

E Dante fez isso com a poesia. Dante escreveu uma poesia cósmica, de tudo. Uma poesia que é uma comédia, eu vou explicar o que é uma comédia – não é nada engraçado, obviamente – mas que é divina. Então, embora nós não saibamos quem são os arquitetos, pois o princípio da autoria na arte é renascentista, quando os artistas não assinavam. Giotto, que era contemporâneo de Dante, sim! E começou a haver as comissões individuais. Mas, na Idade Média, ninguém sabia quem eram os autores das obras de arte, primeiro por serem coletivas e depois por ter a ver com vaidade. De todo modo, Dante é um arquiteto escolástico do cosmos e escreveu uma poesia épica de tudo, a partir de uma forma trinitária específica.

Eu pretendo introduzir vocês, nesta palestra, uma obra com a qual eu tenho uma relação profundamente visceral e pessoal, da forma mais clara possível para que vocês possam ter essa mesma experiência. Pois, mais uma vez, eu repito o que eu disse na obra de Santo Agostinho, “As confissões” são a principal fonte de Dante para a Divina Comédia, pois ela é uma autobiografia também do processo de conversão de Dante em uma linguagem simbólica, uma linguagem alegórica.

 

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