A Igreja de Cristo, Mãe e Mestra, Luz da História.

Percival Puggina

A Igreja de Cristo, Mãe e Mestra, Luz da História.

Meu nome é Percival Puggina. Eu sou arquiteto de formação. Sou aposentado. Tenho uma empresa de produção de conteúdos e estou participando deste congresso de literatura cristã a convite do Instituto Hugo de São Vitor, pois o tema, especialmente, mexeu comigo. Literatura Cristã! Literatura sempre me atrai. Eu sou membro da Academia Rio Grandense de Letras. Tenho gosto pela palavra e pela literatura católica. A literatura cristã é riquíssima e quando me tocou escolher um tema, eu pensei e pensei e encontrei o Daniel Rops que é uma velha paixão minha, um ator extraordinário, um texto fabuloso, tão qualificado que o levou a Academia Francesa. A seletíssima Academia Francesa! Mãe de todas as academias, ditou a regra usada por todas as demais do mundo, desde o século XVII. Lá está incluído o autor sobre o qual irei discorrer.

É impressionante o quanto se ganha quando entramos em contato com a literatura dos grandes autores católicos. Não que a literatura dos ateus, ou mesmo dos anti-religiosos, tenham diferenças qualitativas decorrentes especificamente disso. Eu não penso assim, eu penso que as belas letras podem sair de penas variadas. Mas a literatura que não é católica, que está escondida no laicismo contemporâneo, tem algo que a outra não tem. É um adicional. Porque uma não me eleva uma só polegada acima de mim mesmo. Um livro do Umberto Eco, Saramago ou Hemingway podem proporcionar espaço para a imaginação, a beleza formal e estética, o bom uso da linguagem, mas me deixam aonde eu estou como pessoa. Enquanto que a literatura escrita pela pena de um católico, realmente fiel a Jesus Cristo, me eleva; mexe com uma parte de minha própria natureza, com minha natureza espiritual e me eleva acima do que eu estava antes. É assim que eu sinto.

Então, aceitei este convite com esta paixão, com esta motivação, e este convite me levou ao Daniel Rops. Antes disso, eu gostaria de dizer e, talvez, eu devesse ter dito antes quanto me apresentei. Eu estou em uma fase da vida em que as pessoas se tornam mais reflexivas. É natural! Isto vem com a idade, até independente da qualificação intelectual. Basta a experiência da vida para que as pessoas passem a pensar sobre si mesmas, sobre a vida em si, sobre a natureza. Por mais simples que seja, por mais humilde que seja a mente, isto acontece com todas as pessoas de um modo geral. Eu estou nesta fase. Nesta fase reflexiva. E tive a feliz oportunidade de, nos últimos anos, fazer muitas viagens com a minha mulher. Essas viagens me levaram a encontrar um adjetivo para mim, do qual eu não tinha consciência antes, um adjetivo que foi mexendo comigo gradualmente e é um adjetivo muito pouco usado por nós.

Por exemplo, com muita facilidade, ao olharmos para um sujeito de olhos puxados e pele amarela, nós costumamos chamá-lo de oriental, mas não temos o hábito de nos referirmos a nós mesmos como ocidentais. Eu passei a me ver como um ocidental. Um homem do ocidente. Será que isto quer dizer alguma coisa? Para mim, cada dia diz mais. Em função do que vi viajando, especialmente viajando pela Europa, e contemplando as maravilhas, e eu as descrevo e começo a me arrepiar da nossa cultura, da produção cultural do ocidente, da civilização que foi feita e da sua profunda raiz cristã, que pode hoje ter escapado à consciência de milhões mas, olhando para a produção cultural, lendo a literatura católica, contemplando uma catedral, um mosteiro, uma igreja românica. Um mosteiro em cima de um morro, perdido no interior de um país europeu, difícil de subir! Lá em cima, havia um mosteiro, e foram tantos desses mosteiros semeados em toda a Europa! Isso tudo tem uma história, e é a história do ocidente. Ali estava nascendo uma civilização. A civilização foi sendo esquecida, foi sendo perdida. Mas indo e visitando, não há como não cair de joelhos ao visitar uma catedral daquelas. Que obra extraordinária! Séculos foram trabalhado aqui por homens, gerações sucessivas para construir uma obra para Deus. Para Deus!

Então, com esta cultura, eu dialogo. Não é a mesma coisa que eu vou encontrar no oriente. E sem nenhuma desconsideração ou desprezo, mas, se eu vou ao oriente, eu até converso com aquela obra, entretanto ela não conversa comigo. Ela não fala a minha língua. Os símbolos e os signos não me dizem grande coisa ou não me dizem quase nada. Tem sua beleza plástica intrínseca, mas não é a mesma coisa. Eu devo ter visitado ao longo desses 20 anos, nunca menos que uns 300 prédios religiosos na Europa. É o que eu faço quando viajo. É o que fazemos, minha mulher e eu. Então, eu sei, estou falando das emoções que sinto e do que foi o trabalho daquelas sucessivas gerações através dos séculos.

Por isso, me vejo como ocidental e, sendo arquiteto, eu costumo dizer aos meus colegas, contemplando os centros urbanos dessas megalópolis do século XX/XXI, aquelas torres de vidro que tu encontra em Dubai, em Sidney, em Hong Kong, em Los Angeles, em Montreal, nos lugares mais díspares, nas culturas mais diversas, a mesma coisa. Está tão descaracterizada essa arquitetura… esta produção arquitetônica está tão descaracterizada culturalmente que é, me desculpem dizer, uma arquitetura sem caráter. Quase posso dizer, de mal caráter. Eu tenho visto o que me agrada, o que mexe comigo, e outra coisa. Então, foi assim que escolhi um apaixonado. Este homem é um apaixonado pela civilização ocidental! Daniel Rops! Nasceu em 1901. Família humilde. O pai dele era militar. Nasceu em Épinal, morou quase toda vida no nordeste da França. Se formou em Lion, em História, Geografia e Direito. Foi dar aula. Não há nada de extraordinário na vida dele, a não ser sua extraordinária produção. Alguns dos primeiros livros dele, escritos em uma fase que ele descreve como sendo sua fase como agnóstico, bem no período mais jovem, ele confessa ter destruído mais tarde.

Ele se converteu lá pelos 30 anos de idade, o que significaria que foi por volta de 1930, no período entre guerras. Mas até lá, ele era um angustiado com as realidades sociais, com o vazio da existência, com a falta de resposta que tinha de seu agnosticismo para as agonias da vida. Então, ele escreveu um livro importante, “Nossa inquietação” ou “Notre Inquiétude”, em que ele fala exatamente disso. Depois, escreveu um outro livro que é chamado de “Morte, onde está sua vitória?”, onde ele dialoga com Deus a respeito de suas injustiças. Estava nessa fase meio agónica de uma juventude tumultuada com os problemas de seu tempo e, ainda assim, reconhecendo nas ideias que se infiltravam na Europa e na França (a França é muito permeável às más ideias). Se infiltravam o materialismo e o comunismo e ele percebia que ali tinham problemas. Ele via que, especialmente no comunismo, a negação da possibilidade da espiritualidade não correspondia ao ser humano como ele era.

 

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