Charles Dickens

Rodrigo Naimayer

Charles Dickens

Olá, pessoal. Eu sou o professor Rodrigo Naimayer dos Santos e vamos falar sobre Charles Dickens neste nosso momento de estudos de continuidade do nosso congresso de literatura católica. Às vezes, a gente não sabe ou não escuta falar muito acerca da profissão religiosa de Charles Dickens, qual era a questão da integração de Dickens com o cristianismo e assim por diante. Se fomos olhar a biografia de Dickens, isso não aparece de forma muito pronunciada, muito extensiva. Se a gente for olhar, até de alguma forma, a vida de Dickens, do ponto de vista familiar, é um tanto quanto acidentada. Não estaria dentro daquilo que consideraríamos o ideal para alguém de orientação cristã.

Eu tenho este livro, “A vida de nosso Senhor” de Charles Dickens. É um livro que saiu pela Martins Fontes e tem até uma história curiosa em torno deste livro, pois foi livro que foi Dickens havia escrito em privado, sem o conhecimento de sua família. Ou seja, é quase que um caderno, um manuscrito, que ele produziu da sua visão da vida de Jesus Cristo. Tem que ficar muito claro, quando falamos disso, que isso não é uma evidência dogmática e nem doutrinal. Essa edição, e acredito que nenhuma outra, vai ter um Imprimatur ou Nihil Obstat, que são aquelas licenças da Igreja para se imprimir algum documento vendo que ali não tem nenhum erro contra a fé, a doutrina e assim por diante. É uma obra e eu vou começar falando dela.

Se alguém está já um pouco aflito por querer saber quem é essa figura e assim por diante. Eu vou começar a assentar essa realidade acerca de Dickens, e dessa obra, pois Dickens é um dos autores que ajudam a nos dar um norte acerca do senso desse congresso, afinal de contas, ele não é um autor católico, mas é um autor que está dentro desse contexto cristão.

Eu queria, então, fazer Dickens dialogar com alguns elementos da doutrina católica e, principalmente, a doutrina social da Igreja. E eu estou arrancando com ele por quê? Porque mostra que Dickens tem, sim, uma relação com o Cristianismo e que não é qualquer relação. A figura de Jesus Cristo, para Dickens, não ficou no algo, que às vezes vemos as demais pessoas terem de, quem sabe, Jesus foi um iluminado, uma pessoa de relevo na humanidade, etc, parece pelo que veremos dessa história, que Dickens pensou em vários momentos de sua vida acerca da figura de Jesus Cristo, que é a figura central de toda profissão de Fé cristã.

Se nós queremos saber se alguém é católico ou cristão essa pessoa temos que vê-la buscar ter uma relação pessoal com a pessoa de Jesus Cristo. Morto e Ressuscitado. Pois, é uma relação pessoal e real, não é com um que está em nossos corações, com o ideal que nós queríamos representar que Jesus tivesse e assim por diante. E parece que Dickens buscou, sim, esse tipo de relação. Ou pelo menos uma profunda reflexão sobre a figura central da fé cristã que é o próprio Jesus Cristo.

Então, vou começar lendo um trechinho. Essa obra está envolta em uma certa polêmica, em algum grau, porque esse livro não foi escrito por Dickens para ser publicado, para chegar ao público. Portanto, não confundamos que, para Dickens, essa tenha sido uma maneira de usar seu talento literário ou o relevo que ele teve em certo período para fazer uma obra de apostolado ou evangelização. Não é essa a ideia. Sim, é, em algum grau, uma obra de evangelização, na medida em que ele quis fazer a figura de Jesus Cristo conhecida, pelo menos a figura que ele tinha em sua imaginação ou formulada dentro de seu imaginário. Dickens tinha esse papel. Mas nunca foi uma coisa pensada para o público, e, por isso, teve uma certa dificuldade até essa publicação ser autorizada pela família.

Esta edição traz uma introdução falando de como as coisas chegaram a publicação do livro. Dickens, no começo da obra, se dirigia aos seus filhos. Então, era um livro, ou seja, um caderno, um escrito, que foi feito para essa leitura em casa para manifestar para os filhos quem ele acreditava ser Jesus Cristo.

“Meus queridos Filhos, estou muito ansioso para que vocês conheçam algo sobre a história de Jesus Cristo, pois todo mundo deveria conhecer. Jamais viveu alguém tão bom, tão afável, tão gentil, tão cheio de perdão para com todas as pessoas que erraram, ou que eram de alguma forma doentes ou miseráveis. E como Ele está agora no paraíso, para onde esperamos ir e nos reunirmos depois de morrermos, e lá sermos sempre felizes juntos. Vocês jamais serão capazes de imaginar que lugar bom é o paraíso, sem saber quem ele era e o que fez!”

 

Não vou me alongar mais. Enfim, ele vai entrar, logo na sequência, no nascimento de Jesus que nasceu há 2000 anos em Belém. Para o nosso senso católico, fica um pouco desconfortável a maneira como ele retrata, pois, por exemplo, ele vai dizer dessa maneira:

“Ele nasceu há muito tempo, há quase 2000 anos, em um lugar chamado Belém. Seu pai e sua mãe viviam em uma cidade chamada Nazareth. Mas foram obrigados pelos negócios a viajar a Belém.”

 

É interessante que ele passa ao alto essa coisa do recenseamento feito por César Augusto. Na verdade, ele está falando para crianças. Isso é interessante! Dickens tem uma qualidade, que vamos perceber na maioria dos livros dele, de conseguir traduzir para o público de uma maneira simples e, muitas vezes, essa simplicidade pode ser confundida com infantilidade, mas não é a mesma coisa. Grandes temas e temas, algumas vezes, muito árduos, muito duros. Mas nós vamos perceber, ao longo da leitura de Dickens, que esses temas duros não se tornam temas sórdidos. Isto dentro de uma prática de escrita iluminada pelo Cristianismo e, mais especificamente, pelo Catolicismo, é muito importante. O livro católico pode, sim, tratar de temas muito duros (e deve tratar!) porque, bem ou mal da verdade, a vida do homem se define para junto de Deus. Especialmente, nos momentos mais árduos, onde aquilo que nós somos é colocado em uma espécie de uma peneira e aparece. É nesses momentos mais árduos que aparece o quanto alguém é virtuoso ou quanto lhe falta virtude. Essa virtude, que é força, então o sujeito conseguirá superar de uma maneira virtuosa aquelas coisas que a vida lhe opõe, ou o quanto ele não vai ter força e vai acabar fracassando de alguma forma diante daquela empreitada.

E aí, seguindo adiante nessa realidade, para concluir mesmo esse parênteses que abrimos, ainda que tratemos desses temas muito sórdidos que estão relacionados, especialmente, com a questão da morte e a questão da morte está muito presente no Cristianismo. Duvide de um Cristianismo, seja de vertente católica ou protestante, que coloca para debaixo do tapete o tema da morte, o tema da velhice, o tema da decrepitude, o tema da doença, o tema da loucura – sim! Porque a mente humana pode adoecer e nós vamos ver, especialmente em uma obra que aparece como uma das mais relevante de Dickens, que é a obra “Grande esperanças”, como a mente de uma pessoa pode adoecer de uma maneira quase irreversível.

É interessante como ele apresenta a figura de Cristo. Ele vai dizer que “jamais viveu alguém tão bom e tão afável com todas as pessoas erraram ou eram de alguma forma doentes ou miseráveis.”. Ele, de alguma forma, coloca Jesus entre esse que eram miseráveis. Claro que sabemos que Jesus e sua família não tinham um quadro de vida miserável, mas eram gente pobre e gente simples. Então, é interessante como ele desenha essa realidade. Agora, ainda que o Cristianismo trate dos temas duros, ele nunca os trata de uma maneira sórdida. Nem tão pouco apresenta um olhar niilista que diz “Olha como o mundo é horrível”, “Então, o que vamos fazer? Vamos nos desesperar! Vamos nos jogar no primeiro poço que encontrarmos, pois, a vida é um sem sentido”.

É um pouco aquela cena, que alguns já devem ter acompanhado no filme “O Senhor dos Anéis: o Retorno do Rei”: tem um sujeito chamado Denethor, que é o pai de um dos personagens importantes na história, e ele se desespera na medida que percebe que está vindo grandes hordas de Orcs (monstros malignos), que são opositores daquele último farol de resistência de seres humanos, ali naquela terra criada por Tolkien. Então, esse sujeito manda as tropas dispersarem e diz “Corram! Corram por suas vidas!”. Aparece, então, a figura do Gandalf, dá uma raquetada nele e diz “Olha, não deem bola para este estúpido! Cada um nos seus postos e vamos lá!”.

A visão da literatura e das coisas inspirada por uma visão de mundo cristã, mesmo que quem tenha essa visão não seja propriamente ou formalmente cristão, mas está no passo de caminhar para isto, é uma visão de mundo de quem olha para vida e percebe que o mundo é um lugar que vale a pena. Essa ideia de que o mundo é um lugar que vale a pena redime essa sordidez que aparece em uma literatura desesperançada ou que é uma literatura niilista.

 

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