Como assim “mero” cristianismo?

Henrique Elfes

Como assim “mero” cristianismo?

Confesso que quando recebi o convite para falar em um congresso de literatura católica fiquei um pouco estranhado, pois sempre me pareceu que literatura ou não era católica, ou se era católica, não era literatura. Isso pela seguinte razão, diante desse desafio inicial, eu comecei a refletir e cheguei às seguintes conclusões: que pelo menos algo de verdade há nesse primeiro estranhamento. Eu trabalhei a vida inteira com a publicação de livros de formação católica e, ao longo desse tempo todo, o trabalho de uma editora é um trabalho de reflexão e, necessariamente, é um trabalho de ganhar uma certa distância e enxergar o conjunto da realidade. O que me chamou atenção é que há pouquíssimos livros que podem ser chamados propriamente de literatura católica.

Concretamente, os autores que são católicos por convicção pessoal tentam utilizar a literatura como uma aproximação ou introdução de outras pessoas ao Catolicismo. Nesse campo se enquadram Péguy, Bernanos, todo o pessoal do chamado Renouveau Catholique francês do período entre guerras, e alguns poucos outros como Cronin e algumas obras de Lewis (mesmo assim muito poucas).

As grandes obras escritas por católicos não têm essa tendência, esse desejo, digamos assim, apologético de aproximar do catolicismo, como o Dom Quixote de Cervantes, ou mesmo as novelas exemplares, ou sequer a Divina Comédia. São obras que são sensacionais e sua permanência na literatura mostra a qualidade dessa literatura. Mas elas o são, simplesmente, não porque o autor desejasse convencer o leitor de alguma coisa, e, sim, porque o autor coloca nela toda sua experiência de vida, toda sua visão de mundo e uma parte dessa visão de mundo, talvez a nuclear –  a mais importante-, mas uma parte dessa visão de mundo, vamos dizer assim, aquilo que se chama no Evangelho de pedra angular, que era a pedra que ficava no topo de arco. Essa pedra angular para ele é católica. A doutrina católica é o Cristianismo mas chamar isso de obras católicas é um pouco inconveniente, pois, em certa medida, toda a literatura de todos os tempos, na medida em que se é de qualidade, vai colocar toda a personalidade do autor lá e, portanto, também sua visão de mundo e, com ela, essa pedra angular que é o sentido metafísico de sua vida.

Até a obra de James Joyce pode se chamar católica porque mostra claramente o que acontece com uma pessoa que, conhecendo a verdade católica, a rejeita voluntariamente. Ele a nega porque ele quer. Neste sentido, pode-se dizer que é perfeitamente católica, pois mostra o que acontece com alguém que rejeita. Ela mergulha em uma espécie de ódio permanente à realidade. Por outro lado, do ponto de vista do Cristianismo, a literatura é completamente secundária. Vemos, por exemplo, que existe arte sacra em outros campos como pintura e escultura. Artes que estão a serviço da formação e do conjunto da fé. Mas eles não são obras que sirvam para transmitir a fé. São obras que servem de complemento.

A mesma coisa acontece com as obras que seriam literárias, mas de formação católica. As do Bernanos, por exemplo, e outras. Por uma razão fundamental, o Cristianismo é revelação. Portanto, está dado por Deus e o modo como Deus a deu é por um lado, uma série de personagens que a viveram realmente em sua vida. Portanto, é um fenômeno vivencial, um modo de vida. Um modo de vida que oferece um ideal. Esse ideal é descrito em um conjunto de livros chamado de Sagradas Escrituras, que são livros em ampla medida históricos. Em um segundo momento, vem a reflexão sobre essa realidade vivencial e histórica. Essa reflexão vai tentar sistematizar e organizar racionalmente, esse é o papel da teologia.

Então, o Catolicismo, em primeiro lugar, implica em uma revelação vivencial e real; em segundo lugar, a reflexão teológica, que depois, naturalmente vai ter consequência para toda a reflexão filosófica, que integra as realidades do mundo e as ideias de todas as pessoas do mundo, como conjunto de conhecimento e; só em terceiro lugar, no momento em que é preciso, mexer também não só com o cérebro, com a cabeça das pessoas, mas também com o coração, isto é, no momento em que é preciso passar do lógico para o afetivo, para as experiências, nesse momento que se justifica o papel da arte, e também em concreto da literatura. Portanto, ela tem muito mais uma função apologética. Não pode ser nunca nuclear e, sim, sempre complementar ao conjunto total.

Nesse sentido, confesso que sempre me repugnou um pouco a literatura católica porque sempre percebi por trás das pessoas uma certa tendência a me vender um peixe, a me fazer comprar, me fazer aderir… E confesso que não gosto nada disso. Alguém que me conte sua experiência, acho absolutamente maravilhoso e sensacional. Como é o caso de Dostoievski, como é o caso de Shakespeare, como é o caso de todos os grandes autores. Agora, alguém que está tentando me convencer de alguma coisa e de certa forma usar métodos indiretos, me dá uma certa repugnância. Por isso, nem sequer das obras propriamente literárias do Cardeal Newman, eu confesso que tenho certa distância. Assim, confesso, prefiro que a literatura seja literatura e me fale daquilo que as pessoas são e pensam. Dentro do catolicismo cabe a universalidade, cabe o mundo inteiro. Está dirigido ao mundo inteiro e a todas as pessoas. Essa experiência, mesmo que seja de um ateu, mesmo que seja de um budista, cabe dentro do conjunto. Literatura é católica por definição.

Em outro sentido, quando é uma explicação que ajuda a se aproximar, acho que é interessante, e até curioso, observar que existe muitíssima poucas obras que foram escritas dessa forma e com essa intenção ao longo de toda a história do Catolicismo.

Muito bem. Agora, passemos propriamente ao Lewis. Lewis, na sua formação, tem, podemos dizer assim, três momentos extremamente importantes. Ele é inicialmente um protestante do Ulster, como ele mesmo se define. Ulster é a região da Irlanda colonizada pelos protestantes na época do Cromwell. Ele conquistou a Irlanda e fez questão de fixar ali uma série de correligionários dele que eram de formação presbiteriana escocesa e, depois, deram origem ao movimento republicano inglês.

Nesse sentido, o Lewis parte de uma experiência infantil, de um cristianismo que é, por um lado, dramático, pois o protestantismo do tipo presbiteriano de certa forma põe o homem sozinho diante de Deus. Não há mais nada em volta. É pura fé pela qual você adere a Deus. E Deus te olha em retorno, e te dá a graça, que no caso do protestantismo significa que Ele te acolhe misericordiosamente, tendo uma certa piedade. “Bom, você deu errado, meu filho, mas, tá bom, eu finjo que não aconteceu nada e você pode entrar.”

 

 

 

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