George Macdonald

Rodrigo Naimayer

George Macdonald

Olá, pessoal! Estamos começando nossa palestra acerca de George MacDonald. Um autor desconhecido para a maioria do público, mesmo para que tem algum hábito de leitura no Brasil. Tem uma influência muito grande nesse gênero chamado Fantasia, ou até mesmo nos contos de fadas. Afinal de contas, por que MacDonald é tão relevante?

Se pararmos para pensar, em algum grau, esse nosso século XX foi marcado por uma retomada de alguns elementos da literatura infantil e infanto-juvenil. Parece que nosso século redescobriu os valores desses contos fantásticos depois de um tempo onde eles haviam sido relegados a meras referências a um período de crendice ou algo assim, que lá, mais ou menos, nas nuvens da imaginação das pessoas, estaria relacionado à Idade Média.

Isso tem um motivo. Se nós pararmos para pensar, um dos grandes alimentos que nós temos para a ideia do fantástico, do fantasioso ou mesmo do imaginário, está relacionado a certas epopeias ou ciclos míticos ou fantásticos do período medieval. Poderíamos citar aqui o “Ciclo da Bretanha”, esses contos do Rei Artur e dos cavaleiros da Távola Redonda e do mago Merlin, na verdade muito deles tendo autonomia entre si, ou seja, não existe somente uma história que reúne todo esse pessoal aprontando altas confusões. Mas há também contos que contam com a presença – ou trazem à tona- do Mago Merlin e algumas daquelas figuras, outros só um determinado cavaleiro em uma demanda. Um muito famoso é Sir Galvão e o Cavaleiro Verde.

Todas essas histórias juntas formam o que chamaríamos, de ciclo da Bretanha. Isso vai acontecer com outro tema, que é do Imperador Carlos Magno. Onde teremos o seu séquito guerreiro, que em meio a empreitadas, que tem lá seu fundo histórico, nós sabemos que existiu Carlos Magno e o papel do Império Carolíngio, mas que devido à grande relevância do imperador também veio o fantástico, um dos grandes ciclos que nós temos. E um dos grandes contos é a Canção de Rolando, que faz parte desse tema de Carlos Magno, tema Franco. Ou seja, nós temos esses mitos com uma série de lendas.

Cada população do mundo ocidental, os germanos e os celtas, tem algumas lendas que passam por uma releitura, ganham uma recapagem meio cristã, e assim por diante. Ou seja, temos uma série de símbolos relacionados à magia, ao cavalheirismo, aos grandes feitos, ao enfrentamento de monstros terríveis que passam acima de qualquer capacidade humana de conseguir superar a velha história do embate entre cavaleiros e tudo mais. Isso vai sendo abandonado conforme vamos nos aproximando da Modernidade. Principalmente, quando nós olhamos para obras como Dom Quixote, de Cervantes. Já até ouvi comentários de como mais e mais nós vamos entrando naquilo que alguns costumam chamar de um realismo cristão. Ou seja, de fato, essa histórias medievais, essas lendas, que envolvem fantasia, magia e assim por diante, que seriam originalmente histórias pagãs, com uma maneira de pensar o mundo pagão, inclusive com elementos simbólicos pagãos, que em contato com a cultura cristã as levariam a ganhar uma recapagem cristã.

Quer dizer, trocar certos símbolos grosseiramente pagãos por elementos cristãos e assim por diante. Por isso, alguns vãos, inclusive, sentir um certo desconforto em dizer que esses ciclos mitológicos e essas lendas são, de fato, cristãs. Não é o fato de ter ali no livro algum elemento relacionado ao Cristianismo ou um padre ou um sacerdote etc, ou uma relíquia sagrada cristã.

Basta pensar na história do graal. O graal, dentro das demandas de cavalaria, e é algo que está sempre no imaginário ocidental, ganha uma característica de símbolo praticamente desprendida do real elemento que faz essa peça, se existindo ainda, histórica, quase que solta de seu sentido originário e se torna um negócio mágico. “Quem beber dele, vai ter a vida eterna.” E o graal podia fazer outras coisas também que estão mais próximas de um caldeirão mágico de algum bruxo pagão do que propriamente uma relíquia cristã. O que seria o graal? Esse cálice no qual Cristo celebrou a última ceia.

Existem elementos históricos que apontam que este cálice pode, de fato, existir até hoje como uma relíquia cristã que está na cidade de Valência. O Santo Cálice. Mas a gente percebe isso. A gente olha para o Graal e pensa: “Cara, calma aí!” Tem uma coisa a mais que não é só no Cristianismo que é o elemento simbólico que não é originalmente cristão e não precisa ser necessariamente negativo, e que não está dentro desse certo pé no chão que existe no Cristianismo.

Talvez, algumas pessoas fiquem meio surpresas em ouvir dizer que no Cristianismo existe pé no chão. Mas de fato existe. Os milagres não são uma coisa que nega esse realismo cristão. É uma coisa que o reafirma porque o mundo, para o cristão, não é envolvo em um universo de coisas fabulosas que toda hora contrariam as regras da natureza.

Pois, nós temos um mundo que foi muito bem pensado por Deus. Logo, não há porque ficar mexendo nas regras dele. O que Deus acaba operando são milagres para nos ajudar em nossa incredulidade, ou então na missão dos seus santos, em vista que Ele deseja criar a possibilidade de que os homens bons cheguem ao conhecimento da verdade e, por isso, ele manda seus auxílios e, algumas vezes, essas ações de Deus no mundo ganham tons muito extraordinários até do ponto de vista físico. É o que chamamos de milagres. Mas justamente esse realismo cristão acaba nos levando a considerar que essas coisas são extraordinárias.

No mundo do fabuloso do pagão, em grande parte, é um mundo que está muito mais aberto a essa história de que toda hora vai acontecer coisas inexplicáveis. Já no mundo cristão é outra “matemática”. A “matemática” do mundo cristão é que o mundo tem sentido, o mundo tem logos e, consequentemente, como tendo sentido, nós somos pessoas racionais, apesar dessa razão ter limitações pelo fato de não sermos seres divinos mas sermos criaturas, então, nossa razão é capaz de compreender, em grande parte, o sentido que dá origem e faz o mundo continuar existindo. Ou seja, o mundo apregoado pelo Cristianismo não é um mundo de constantes mistérios insondáveis.

Há mistério, sim, considerando que podemos entender as coisas até certa parte e depois outra parte se torna incompreensível. Mas ainda que seja um mundo com muitos mistérios, não é um mundo absurdo. Isso é que tem que ficar claro! Às vezes, a impressão que se dá, dentro do contexto de cosmogonia e cosmovisão – da visão de como o mundo se dá -, por parte de algumas estruturas de pensamento que não são cristãs, é que o mundo é, na verdade, um absurdo sem sentido. Algumas vezes, inclusive, para escapar desse absurdo, algumas populações decidiram se arvorar ou se ancorar nessa ideia de destino.

A ideia de destino é fatalismo. Até em inglês a palavra para destino é fate. É aquela coisa que é o traçado dos deuses para mim e eu não tenho como fugir daquilo. O que é muito diferente da onisciência divina que deixa, sim, a ação para o meu livre arbítrio. São conceitos diferentes. Portanto, com o passar do tempo, de alguma forma, o pensamento cristão foi dando origem a uma literatura mais realista, e não entenda realismo com a exclusão do miraculoso do fantástico ou do maravilhoso, mas realista no sentido de afirmar que a realidade é uma realidade! Então, que faz sentido, e fazendo sentido, essa realidade não combina com a ideia de que toda hora as regras da natureza ou mesmo a maneira de existir do homem siga sofrendo alterações e intromissões de forças sobrenaturais.

 

 

 

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