O catolicismo nas sílabas de Joaquim Nabuco.

Thomas Giulliano

O catolicismo nas sílabas de Joaquim Nabuco.

 

Me chamo Thomas, Thomas Giulliano Ferreira dos Santos. Sou professor de História. Fui organizador do livro “Desconstruindo Paulo Freire” e estou aqui para falar sobre Joaquim Nabuco, a relação dele com a literatura católica e, mais do que isso, todo esse itinerário humano que ele tão bem percorreu.

Neste sentido, começo com a menção de que toda a vida humana é formada, inescapavelmente, por um conjunto de somas. Nós temos as nossas etapas de formação, que são inescapáveis. Temos as memórias de nossa infância, de nossa chamada adolescência, de nossa vida adulta e depois, claro, as memórias inescapáveis de um certo saudosismo que todos esses itinerários acabam deixando.

A vida de Nabuco é formada por um conjunto de somas que ele muito bem definiu. Ele tinha, inclusive, uma menção, que era muito cara, de que os anos que terminavam em oito – e alguns outros momentos que o calendário explicita – definiam a sua própria existência ou uma certa mudança de rumo. Ou seja, toda a vida humana, do camponês mais simples a um notável como Nabuco, é formada por um conjunto de experiências (as memórias afetivas se perdem, mas algumas ficam). No caso de Nabuco, ele conseguir, por um esforço confessional, definir essas lembranças não só em seus diários, mas mais do que isso, ele as definia por meio de alguns símbolos, como mencionei, o ano terminado em oito e coisa do tipo.

A minha ideia aqui é falar sobre Nabuco a partir de três recortes. Recortes que ele definiu, mas que não totalizam, evidentemente, a sua vida, mas eu entendo que são os recortes mais importantes. Em um primeiro momento, quero falar de forma mais expandida sobre sua biografia. Em um segundo momento eu quero recortar um elemento, o elemento mais substancioso de sua biografia: a sua conversão ao catolicismo. Em um terceiro momento quero falar sobre os seus escritos.

O objetivo desta palestra é mais do que fomentar um certo itinerário de leitura em torno de Joaquim Nabuco, mas apresentar um lado que ele sempre deu relevância, mas que muitas vezes é ignorado de uma maneira um tanto quanto oportunista, eu diria. Exemplifico isso: há um exemplar muito bem organizado pela Topbooks, da obra “Um estadista do Império” – mais adiante comentarei sobre ela -, em suma, tanto por José Camilo de Oliveira Torres quanto por Gilberto Freyre, a obra foi definida como a Bíblia de nossa historiografia. O que isto quer dizer? Para explicar, eu gosto de dar sempre um exemplo. Existe o fato histórico. O fato histórico é aquilo que acontece essencialmente no tempo, na realidade. O historiográfico é a produção em cima do fato, a produção do ofício de historiador. Nesse sentido, então, sendo a bíblia de nossa historiografia, é como um manual de como fazer uma obra historiográfica. Dois notáveis que com seus sinônimos e antônimos em seus pontos de vista de investigação, Gilberto Freyre e João Camilo, definiram da mesma maneira a obra “O estadista do Império” como a nossa bíblia. Pois bem, a obra foi muito bem editada pela Topbooks. Mas há um espaço, um vácuo, um limbo, como queiram definir, do processo de conversão de Nabuco, quando apresentam todo o seu itinerário existencial.

Ou seja, no final da obra há uma cronologia da sua vida. Nasceu em tal dia, se desenvolveu assim, naquele momento participou de tal manifestação política. Enfim, todo este percurso. Quando chegamos em pontos catárticos (definido por ele dessa maneira), como sua experiência nas missas, sua nova confissão, sua primeira comunhão depois de convertido, que ele tão bem descreveu, inclusive em livro, enfim, esses fatos são ignorados e há um silêncio até chegar à sua morte. Quer dizer, ao pegar uma obra, repito, muito bem organizada, do seu ponto de vista técnico e acadêmico, há esse silêncio, quiçá, em obras de organização inferior.

Se Nabuco, em nosso país, pouco é conhecido dentro do recorte de todo seu trabalho heroico em torno da abolição, ainda mais o Nabuco intimista, o Nabuco católico, o Nabuco de terço na mão e de confissão semanal. Então, meu objetivo é falar do Nabuco abolicionista, mas falar também de experiências religiosas que, como ele mesmo disse, adocicaram seu espírito para sua conversão definitiva. O Nabuco que em certo momento da vida testemunhava os milagres que assistia dentro das igrejas que frequentava, é o mesmo menino que aos oito anos, na escada do Massangana, recebeu um negro clamando por acolhida. E eu quero demonstrar essa continuidade.

Pois bem, falar de Nabuco, é sempre, pelo menos de maneira muito pessoal, algo que me encanta. Me sinto muito lisonjeado por ser brasileiro e por comungar das cores da pátria de Nabuco. Nabuco não foi, e não falo isso por nenhuma espécie de ufanismo ou de partidarismo, seja o que for, um homem que está na galeria simplesmente dos grandes brasileiros. Não! Ele é, sem sombra de dúvida, um dos maiores nomes da história da humanidade. Isto é um fato. Eu vou explicar isso para que não fique uma coisa hiperbólica. Pensemos comigo, a escravidão é uma chaga na história da humanidade de maneira inescapável. Ela dialoga com outras espécies de barbarismos e, como Santo Tomás mesmo ensina, tanto para o bem quanto para o mal, existem níveis. A escravidão ocupa um nível do barbarismo humano que lhe é coerente. Se ele foi no Brasil que por maior quantidade e por maior tempo, dentro de um certo recorte, desenvolveu e aplicou a escravidão, escravidão esta que é muito mal discutida, mas pegando só a ideia temporal e a ideia do absurdo, se ela foi amplamente aplicada no Brasil, e ele é o nosso abolicionista, com artigo definido, ou seja, O abolicionista, e não no indefinido, um abolicionista, ele resolveu um problema na história da humanidade, ou ajudou a resolver.

Neste sentido, ao lado de outros notáveis exemplos, como quando a gente pensar em Churchill na Inglaterra com relação ao nazismo, nós temos Churchill em uma alta relevância, pelo fato de que ele conseguiu executar, não sozinho, evidentemente, uma ação prática contra um tormento da humanidade naquele período. Com Nabuco, dentro de sua proporção, temos o mesmo processo. Repito. Se o Brasil viveu a chaga da escravidão e se ele foi O abolicionista, o líder, eu estou falando de um homem que está fora do Brasil e que dialoga sobre o ponto de vista humano. Este foi Nabuco. E como se desenvolveu este abolicionismo? Como ele, de alguma maneira, foi impactado por este tormento humano e como isto tocou sua alma? Pois bem, cronologicamente, Nabuco é filho do Senador Tomás Nabuco de Araújo. Quem já leu, por exemplo, “O velho Senado” de Machado de Assis, conhece alguma coisa, pelo menos de maneira preambular, qual foi sua estatura enquanto político.

Sob o ponto de vista da aristocracia brasileira, Nabuco vem de uma família tradicional. Uma família de políticos. Uma família que teve gerações participando ativamente de processos significativos da nossa formação nacional. E Nabuco é filho do grande Senador Nabuco de Araújo, que não só tem essa estatura de ter sido descrito por Machado de Assis, de ter sido biografado pelo próprio filho por ter sido o homem que é a linha mestra do estadista do império, mas tem uma outra estatura que também é importante, de maneira preambular, já era abolicionista, já tinha um trabalho e um envolvimento com as questões que posteriormente culminariam com Dom Vital e toda a celeuma da questão religiosa no Brasil. Ou seja, nós estamos falando de Tomás Nabuco de Araújo, que é uma figura nevrálgica do próprio tempo e Nabuco entendeu isso e, por isso, escreveu sobre o próprio pai, n“O estadismo do Império”.

Fechar Menu
>
×