Os Vícios e as Virtudes retratados em Shakespeare

Rafael Nogueira

Os Vícios e as Virtudes retratados em Shakespeare

Primeiro, quero agradecer ao convite que o Clístenes me fez e ao Instituto Hugo de São Vitor tendo essa iniciativa de promover um congresso de literatura católica. Eu tenho o benefício de ter me aproximado e reaproximado da fé por causa dos livros. Na verdade, eu não poderia ter me aproximado por causa dos livros, pois eu fui batizado muito pequeno. Fui batizado quando bebê, então, não seria essa minha primeira aproximação. Mas, depois, na adolescência, eu tive um momento de afastamento que a gente pode até chamar de apostasia. Eu comecei a fazer determinadas questões. Estudei sempre em colégios católicos. Eram colégios de freiras. E depois eu fiz universidade católica. Com muitos padres, inclusive. Meu primeiro curso foi Filosofia.

Nesse processo todo, eu lembro que muitas perguntas que eu fazia, e não eram perguntas muito bem, tecnicamente, filosóficas, não eram perguntas muito bem estruturadas, mas eram perguntas de adolescente petulante. De qualquer forma, alguma delas evidenciaram algumas inquietações muito sérias ligadas à religião. Eu percebia que não respondiam para mim, nem mesmo os professores, nem mesmo minha família e nem tão pouco os freis, que eram responsáveis pela paróquia que, por sua vez, era vinculada ao colégio onde estudei. Então, eu comecei a entender que a fraqueza intelectual daqueles que me orientavam era a fraqueza da Igreja Católica. Essa associação que eu fiz me levou muito longe. Um pouco depois dessa fase, eu comecei a procurar as respostas para as minhas perguntas em muitos outros lugares e foi por meio dos livros que eu também me desviei e fui para longe. Fui parar em grupos que estudavam como a Igreja atrapalhava, digamos assim, o desenvolvimento intelectual e moral das pessoas. Até que, como aluno do professor Olavo de Carvalho, eu comecei a perceber, pela filosofia, que muitas das minhas perguntas poderiam ser respondidas pela filosofia católica. Então, o primeiro passo que eu tive que dar foi ler textos que explicavam sobre aquelas perguntas que, para mim, eram melhores respondidas em outros cantos. Portanto, eu tive que ter aquele momento de dúvida: “Olha, eu pensei que sabia o que era a Igreja, o que era o pensamento e doutrina da Igreja, mas na verdade eu não sabia quase nada ou nada.”.

Então, eu fui aos livros e à literatura. Não me refiro aqui à literatura apenas como o conjunto de livros, mas à literatura ficcional, que passou a ser, para mim, uma espécie de tela onde eu pudesse imaginar os personagens à luz daquilo que eu estava aprendendo sobre a fé católica. Tanto que cheguei a um ponto onde desenvolvi um curso para o Instituto Borborena que nomeei de “Se Aquino lesse Shakespeare”. Nesse curso, eu fiz uma relação de um aspecto só: estamos, hoje em dia, vitimados pela propaganda, de modo que tudo que fazemos tem que ter um certo marketing. Então, é claro que eu não peguei toda a doutrina de São Tomás de Aquino e cruzei com toda a literatura de Shakespeare. Seria impossível. Mas o que eu quis foi fazer um recorte, um breve recorte. Por isso, eu peguei o “Tratado dos sete pecados capitais” (o volume que uso é uma tradução de Jean Luiz Lauand pela Martins Fontes) e essa visão que é de um compêndio de textos de São Tomás de Aquino, do tratado De Malo e da Suma Teológica a respeito dos sete pecados capitais. Pelas peças de Shakespeare, na verdade, eu estudei para mim mesmo umas 5 ou 6 para fazer essa comparação, mas escolhi para o curso 4. Então, eu consegui fazer esse cruzamento, que foi importante também, para eu entender melhor essa questão moral da Igreja. Eu me formei em Filosofia, me tornei professor e lecionei por muito tempo estudos sobre livros clássicos. Na concepção Adleriana do termo, Mortimer Adle dizia que os textos clássicos são os textos mais importantes que fizeram com que a humanidade (o ocidente pois a gente não trata do oriente), alcançasse certos patamares de pensamento.

Então, por meio desses estudos, eu fiz seleções de livros para estudá-los e depois para lecionar. Nessas seleções, sempre constavam livros católicos como, por exemplo, “As confissões” (a edição que uso é a da Pilgrim da Companhia das Letras pois está traduzida agora) de Santo Agostinho e alguns trechos que geralmente são ligados aos pecados, ou ao direito e a política de São Tomás de Aquino porque, justamente, eu também sou formado em Direito e eu nunca fui muito voltado a ler as leis, ensinar as leis e nem de atuar profissionalmente, mas eu gostei muito de estudar a questão da Filosofia do Direito. Então, o “Questões de Tomás de Aquino sobre direito e política” é uma compilação, provavelmente do francês mais bem atualizado com relação a literatura católica e ao Direito, Michel Villey. Villey tem também um livro, um Tomo, sobre a história da filosofia do direito que conta, sob um ponto de vista católico, que eu não sabia. Antes, eu não tinha essa visão.

Então, quando eu comecei a dar passos de aproximação, foi mesmo pela filosofia e pelas respostas às minhas perguntas. Me formei em Filosofia estudando moral. Meu primeiro Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), como bacharel em Filosofia, foi sobre ética. O meu segundo TCC, como licenciado em Filosofia, foi sobre educação moral. Eu trabalhei de modo bastante laico, o que foi muito interessante para eu vir parar em Tomás de Aquino para vir procurar essas respostas.

Mas, vamos às minhas perguntas. Minhas perguntas de deísta afastado do catolicismo, com muita petulância e pouco conhecimento tradicional. Uma das minhas primeiras perguntas era sobre a fé. Minha ideia de fé era aquela de aproximar o termo fé de credulidade. Como se fosse a mesma coisa fé e crença cega. Me faltava estudar e praticar para observar o que, de fato, significava fé. Uma das minhas questões era mesmo sobre a fé. Mas eu não tinha ainda, embora eu soubesse que a fé para a doutrina católica era uma virtude teologal. Eu tinha essa compreensão.

Eu já tinha a estudado em Filosofia e também sabia que a fé, enquanto virtude, não dependia só daquele que crê, mas de algumas questões que, para mim, eram muito difíceis de entender, ligadas a Deus e ao modo como Ele – com o seu amor – estende as mãos para nós. De qualquer forma, chegou um momento em que eu precisei revisar o meu conceito.

Quando a gente pega a ideia de fé e só relaciona com crença (pois, a bem da verdade, há muitos católicos que, de fato, acreditam sem questionar somente memorizando uma coisa ou outra e não conseguindo responder) tem-se o problema daqueles que me instruíam: eles não conseguiam responder. Só que, como eu me aproximei do catolicismo pelos livros e pelos os estudos, eu passei a saber que as respostas existiam e eram muito boas.

Portanto, nessa questão da fé, a fé não é exatamente essa crença cega. Ela tem mais relação com a palavra “confiança” do que com crença. Crença parece assim: “pare de pensar e aceite.” A confiança já é uma coisa que a gente deposita nas pessoas. Nós depositamos confiança primeiro no universo. A gente dorme e entende que o Sol vai nascer no dia seguinte. Depois, a gente confia nas pessoas que preparam nossas comidas quando nós vamos a um restaurante. Ou todo mundo que se arvora no saber, vai verificar como estão preparando, os detalhes de higiene, como foram tratados e armazenados os detalhes de higiene antes do preparo? Então, a gente tem uma certa confiança humana nas pessoas. Uma palavra que vem, que remonta ao hebraico, emef, confiança nas pessoas, que deriva para a religião, como nós temos toda uma sucessão tradicional da Igreja que vai resguardando uma certa tradição e isso dura milênios. E, geralmente, o adolescente petulante tem a ideia de que ele consegue, por simples perguntas, desmontar toda essa tradição.

Depois, por causa dessa petulância se reunindo com grupos que se pretendem justamente estudiosos das respostas, antirreligiosa, anti tradição. Quando vamos perceber, os dois milênios de Igreja não foram só de crença cega, foram dois milênios de estudos, de explicações.

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