Pe. Antonio Vieira

Sandro Alex Simões

Pe. Antonio Vieira

Minha saudação a todos os participantes deste congresso de literatura católica. Agradeço o convite que me foi gentilmente endereçado pelo Joel e os organizadores, para poder estar aqui. Eu sou o professor Sandro Alex Simões e vou falar hoje sobre o tema “Quem ama mais que muito: os homens, o mundo e a cruz”, na homilética do Pe. Antônio Vieira. Quero, desde logo, dizer a todos que o curso desta conferência vai ser encaminhado por escrito aos organizadores e vou, portanto, dividi-lo entre a leitura da maior parte dos trechos desse artigo, deste ensaio, e algumas explicações pontuais. Renovo o agradecimento pela possibilidade de dividir a palavra com todos vocês sobre esse tema e esse personagem tão significativo para o mundo de língua portuguesa, que é o Padre Antônio Vieira.

A pretensão desta palestra é combinar os elementos literários que estão presentes no Pe. Antônio Vieira, o seu estilo, a sua retórica específica, a sua maneira de expor as ideias, mas, essencialmente, o pano de fundo sobre o qual o Pe. Antônio Vieira constrói sua verve. Ele vai expressar o seu pensamento em estilo muito próprio, que está entre o mundo antigo e um mundo novo, dentro do período em que ele vive.

A vida de Antônio Vieira atravessa praticamente todo o século XVII. Um século tumultuado, especialmente na Península Ibérica, particularmente para Portugal, pressionado por diversas tensões de natureza bélica e vivendo novamente um momento delicado de extinção ou de vias de extinção, recém-saído do período muito tumultuado da União Ibérica, mas às portas do perigo de sua dissolução nas tensões com a França, com a Inglaterra e com a própria Espanha.

Neste século extremamente tenso que viverá o Pe. Antônio Vieira e, como um português franco, aquele que atravessa o Atlântico. Um português que olha para além da própria terra. Um português que, para ser francamente português, é todo o mundo, como bem expressou a respeito da própria personagem de Vieira, Fernando Pessoa.

Eu, então, início essa minha conferência logo de princípio marcando a seguinte premissa: o pensamento de Vieira, que é expresso através de seus sermões (essa é essencialmente a forma da sua obra, o estilo em que ela se plasma, já reduzida a mais de 30 volumes de Sermões, a maior parte dele publicados durante a própria vida de Vieira), é marcado por uma unidade de pensamento. A sua obra é marcada por uma unidade de pensamento. Mesmo em suas dimensões propriamente literárias, estéticas, políticas, teológica e, geoestratégicas (inclusive, militares), parte das preocupações de Vieira. Sua participação no pensamento econômico português do século XVII, em todos esses aspectos, parece muito dispersos, não podemos nos deixar enganar, pois é óbvio que Vieira apresenta uma unidade em seu pensamento.

Essa unidade de pensamento é emoldurada por alguns pontos fixos, pontos firmes, que procurarei expor aqui através de uma linha que nos permite, nesse recorte metodológico, observar o pensamento de Vieira de uma maneira um pouco mais próxima, que é como ele pensa a Amazônia. Ou seja, vou procurar, dentro do pensamento de Vieira – ou a partir de seu pensamento, ou se um objeto específico de seu pensamento que é a Amazônia Brasileira -, partir para a moldura e para a identificação desta moldura que representa a unidade do pensamento de Vieira em seus diferentes aspectos.

Então, aqui, nós não conheceremos as fronteiras firmes entre teologia, ou pensamento escatológico que está presente em Vieira, seu pensamento político e seu pensamento estético porque ele transita entre essas áreas sem nenhum escrúpulo, mas com absoluto rigor. Sempre demonstrando um mesmo fundamento e uma mesma pretensão que nós procuraremos identificar ao longo desses próximos 50 minutos. Vamos a isso então!

A proposta com que esta conferência procura trabalhar, especificamente em relação ao pensamento de Vieira e aos Sermões de Vieira, que tocam o Brasil, ou de maneira mais próxima, a Amazônia, é que as representações sobre a Amazônia, que se encontram tradicionalmente em diversos autores e em diversas épocas históricas, têm em Vieira também um espaço que a representação da Amazônia enquanto um vazio. Mas este vazio é trabalhado em Vieira de uma maneira específica, de uma maneira singular. Este vazio é paradoxal e é constituído de um ponto de vista pela magnitude impressionante dos rios, um clima incontestável, que cerca e esmaga tudo, uma imensidão de floresta e verde e, apesar de tantos elementos, de tantas coisas distintas e titânicas que provocam, não raro, o horror do europeu que aqui chega, como se encontra em vários dos relatos dos viajantes estrangeiros que estiveram pela região, Alfred Russel Wallace, por exemplo, um desses muitos estrangeiros que constroem esses relatos.

Diante da impressão desses elementos e a intensidade do que eles provocam, este horror se prostra diante de um vazio. A imensidão não constrói. A imensidão e a força do clima destroem. Esse imenso espaço territorial é também um grande vazio demográfico e isso chama a atenção de todos esses visitantes europeus, e isso estará também em Vieira.

Alexandre Ferreira Rodrigues também é um desses representantes importantes que toca especificamente no ponto do vazio demográfico. Todos eles posteriores a Vieira, Euclides da Cunha também não foge a isso, cujo livro já começa falando sobre a terra sem história que é a Amazônia. Todos esses temas muito fortes e muitos significativos que encontram em Vieira uma presença e uma aceitação, mas também uma formulação distinta. Este vazio não é exatamente aquele que vai ser expresso pelos visitantes posteriores da região.

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