São Bernardo de Claraval

Joel Gracioso

São Bernardo de Claraval

Olá, meus caros. Estamos aqui, então, para conversarmos hoje sobre um autor e pensador cristão extremamente importante, digamos assim, na história da Igreja, na história da Fé católica e, portanto, no pensamento cristão. Este autor é São Bernardo de Claraval. Ele que nasceu em 1090 ou 1091, dependendo da fonte que usamos, e morre no ano de 1153.

São Bernardo, veio de fato de uma família numerosa de sete irmãos, na qual ele era o terceiro. Seu pai se chamava Tescelin e sua mãe, Aleth, ou seja, ele de fato é filho de duas grandes famílias nobres da região da Borgonha, na França. Não é à toa, nós vamos ver, que São Bernardo foi conhecido como um grande gênio religioso. Uma pessoa que teve, realmente, uma importância e uma relevância muito grande na vida da Igreja e na época dele.

Para nós podermos compreender um pouco a sua pessoa, o que ele produziu e o desenvolvimento de seu pensamento, eu gostaria de chamar atenção para alguns aspectos da vida dele, de sua personalidade e também um pouco do contexto histórico, o estilo de vida e quem foi realmente São Bernardo. Então, além desses dados familiares que eu já mencionei aqui, Bernardo teve a oportunidade, na época dele, junto aos irmãos, de estudar o trivium, a gramática, a retórica e a dialética. Ele, de fato, ao estudar o trivium, evidentemente, acabou recebendo influência no seu modo de pensar, de se expressar, de articular suas ideias, de lidar com determinados problemas, etc. Como também ele teve, dentre os seus estudos, a possibilidade de ler grandes clássicos de sua época e principalmente da cultura antiga como Horácio, Virgílio, Ovídio, Cícero, Lucano, Boécio, além dos padres da Igreja como Santo Agostinho, Santo Ambrósio e tantos outros por quem ele tinha um amor profundo e uma consideração profunda.

Com relação ao quadrivium, Bernardo teve apenas, segundo seus biógrafos, algumas noções bem elementares de aritmética, geometria, da música e da astronomia. Era um jovem que tinha uma personalidade muito bem estabelecida. Ao mesmo tempo que era uma pessoa firme e com toda uma audácia, tinha também uma sensibilidade muito grande ao sofrimento dos outros e para as dificuldades daquelas pessoas que estavam ao seu redor.

Ora, nós vemos na obra de São Bernardo uma valorização muito grande das ciências sacras enquanto que as ciências profanas, não que para ele elas não tenham nenhum valor, mas acabaram ficando em segundo plano, digamos assim. Portanto, por mais que ele tenha tido a oportunidade de estudar o trivium, a retórica, a dialética, a lógica, a gramática e tantas outras coisas, ele, como muitos acabaram dizendo, é alguém que tem um amor profundo por Deus. Quer dizer, se em alguns momentos vai ter essa relação com a tradição filosófica ou com questões filosóficas, como gostava de salientar, também gostava muito de expressar que a filosofia dele era conhecer Jesus. E Jesus crucificado. Isso já expressa, digamos assim, toda sua consideração e todo seu amor por Cristo.

Portanto, muitas vezes, são Bernardo foi visto até como alguém que era profundamente fideísta e para o qual seria como se a filosofia não tivesse valor nenhum. Na realidade, se analisarmos com calma, no fundo, São Bernardo recebe, digamos assim, no contexto do século XII, pois ele nasce no final do século XI, mas vai desenvolver todo seu pensamento e sua vida no século XII, ele herda uma polêmica que é anterior a ele, e que no fundo vai explodir no século XI, que é a grande polêmica ou discussão, entre dialéticos e antidialéticos, ou entre dialéticos e teólogos.

Os dialéticos que tinham lá muitos também a sua fé, mas que defendiam o direito da filosofia, da dialética, da lógica, de tratar determinados problemas religiosos, discutir passagem das escrituras, analisar problemáticas em relação aos dogmas ensinados pela Igreja, e por outro lado, os antidialéticos ou teólogos entendiam que o uso da dialética ou lógica para discutir essas questões poderia ser um grande risco, um grande problema. De um lado você tem, por exemplo, Berengário de Tours, que era um dialético que já questionava ou procurava discutir, por exemplo, como falar e como compreender o sacramento da eucaristia e em que sentido, podemos dizer, o pão e o vinho se transformam no Corpo e Sangue de Cristo. Ou seja, a problemática da transubstanciação.

Berengário de Tours entendia que, do ponto de vista lógico, dialético e racional, falar de uma presença real seria um grande problema porque nós teríamos a substância e o acidente e se eu tenho pão e vinho e há uma mudança de substância, ou seja, a natureza daquela coisa não é mais pão e não é mais vinho, mas é Corpo e Sangue de Cristo, como os acidentes podem permanecer se eles dependem da substância? logo, se o acidente não existe por si mesmo, mas existe na substância, então parece que se há uma mudança de substância, deveria também desaparecer o acidente correspondente. Por isso, ele vai falar muito mais de uma presença espiritual de Cristo no pão e no vinho do que uma presença real e uma mudança de substância. Lanfranco, que foi mestre e prior de Santo Anselmo, e também outros vão ouvir essas considerações e vão mostrar ou contra argumentar, vão defender a presença real de Cristo na Eucaristia e a partir dessa polémica vão procurar mostrar para onde o abuso da dialética pode conduzir.

Toda essa polêmica, toda essa questão entre dialéticos e teólogos, que estão ali disputando qual o estatuto da razão perante os mistérios revelados por Deus, e parente o próprio mistério de Deus, precisa tomar-se um certo cuidado segundo os teólogos. No fundo os dois grupos estão discutindo qual é esse estatuto e qual o lugar da razão perante tudo isso. Os teólogos querem mostrar que existe um risco enorme de se cair em determinadas heresias. Santo Anselmo no século XI tenta, ao modo dele, fazer uma síntese tentando mostrar que tanto dialéticos quanto teólogos, um por presunção e outro por negligência, estariam, mais ou menos, equivocados.

 

 

 

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